terça-feira, 28 de agosto de 2007

Comitivas

A definição de comitivas, segundo o dicionário Aurélio, é apenas uma mera formalidade, pois trata-la apenas como gente que acompanha é muito pouco pelo seu significado em rodeio. Na prática, as comitivas são grupos de pessoas amantes desse evento cultural e esportivo que se unem com o propósito de difundir e participar das festas de peões em todo Brasil.
Tem uma importância maior que torcida organizada num estádio de futebol, porque além vivenciar a festa em conjunto, ajuda muitas vezes na organização e até condução dos eventos. Existem milhares de comitivas espalhadas pelo país e estão sempre ligadas a algum segmento, seja ele cidade, bairros, ideologias, duplas e cantores sertanejos e até opção sexual. Os nomes das comitivas mostram um pouco dessas influencias e direcionamentos dentro da festa, como por exemplo: Comitiva Boi Doido, Comitiva Cavalo Xucro , Comitiva Bebo pra Kraio, Comitiva Festa Louca entre outras tantas.
A ACESP (Associação das Comitivas do Estado de São Paulo) é o órgão de apoio as comitivas na divulgação e elaboração. Qualquer pessoa pode montar uma comitiva, para registra-la, deverá ser feita uma busca em um cartório para verificar se já existe alguma comitiva com o mesmo nome. Não havendo problema, é só registrar o nome. Após concluída a primeira etapa, deve ser feito um estatuto, com as regras e condições do associado para com a comitiva assinado por um advogado, pelos representantes da comitiva (com firma reconhecida) e registrado no cartório.
Depois, é só preparar a ata da primeira reunião com a assinatura do advogado, sem necessidade de registrá-la em cartório. Por se tratar de algo organizado, cada comitiva tem seu escudo próprio e seu uniforme. Um dos itens importantes no camisão da comitiva é a bandeira. Com base nos padrões adotados, todo integrante de uma comitiva deve ter o bordado da bandeira do Brasil em sua manga esquerda, na parte superior, como símbolo de representação nacional do seu estilo.
Algumas comitivas também utilizam a bandeira de sua cidade, que por sua vez, poderá ser bordada junto com a bandeira brasileira, ou em qualquer outra parte do uniforme. Depois de todas essas formalidades, os membros das comitivas caem na festa, se divertindo dançando músicas country e sertanejas, batendo a bota no chão, levantando poeira, seja nas festas de rodeio ou qualquer lugar e o que mais deixa as pessoas admiradas é a união que existe entre os membros de uma comitiva e a alegria que eles tem em viver a vida.


Bandeira da cidade de São Paulo

Música no ar

Música Caipira Nacional


A música sempre existiu, em qualquer época ela estava presente e sempre serviu como divertimento para o ser humano. Na época da colonização portuguesa em terras brasileiras, tudo era muito primário, mas a famosa viola caipira já existia desde aquele tempo. Porém o material era diferente dos dias de hoje, a viola era cavada em um tronco de árvore mesmo, e as cordas eram feitas de tripas de animais, depois passaram a ser feitas com arame. A partir da viola diversos ritmos e diversas danças foram sendo criados, como o cururu, a catira, o fandango e a moda de viola, ritmos dos primórdios da música sertaneja brasileira, um meio das pessoas da roça expressarem sua cultura.
Com a urbanização do país, a música caipira foi ganhando a cidade, e com a difusão do rádio, artistas sertanejos como Cascatinha & Inhana e Pedro Bento & Zé da Estrada passaram a ter espaço nas grandes gravadoras. No inicio dos anos 60, com o surgimento de Tião Carreiro, a música caipira cresceu mais ainda, foi conquistando novos adeptos, e com o tempo, foi surgindo mais e mais artistas do calibre de Sérgio Reis e Renato Teixeira, artistas que continuam fazendo sucesso mesmo com a virada do século.

Cascatinha e Inhana, dupla percursora da música caipira
Nos anos 80, o country music ganhou muita força comercial, e as violas elétricas foram adaptadas a música caipira, culminando com a explosão da dupla Chitãozinho e Xororó no ano de 1982. Outras duplas de sucesso vieram em seguida, e a tradicional musica sertaneja de raiz passou a dar espaço a músicas mais românticas.
Assim cantores como Zezé di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo arrastaram multidão de fãs em seus shows nos anos 90. Existem os que desaprovam as mudanças de rumo que teve a música sertaneja ao longo do tempo. Michel Roulet é um dos que prefere o sertanejo de raiz, “os sons atuais parecem música de corno”, ele ainda classifica duplas como Zezé di Camargo & Luciano e Edson & Hudson como “breganejo”.
Independente ou não da polêmica, a música sertaneja continua a ser destaque nesse início de século. Duplas como Bruno & Marrone, Edson & Hudson, e mesmo as mais antigas como Zezé di Camargo & Luciano ainda ganham muito destaque nos programas de auditório da televisão e sempre estão entre as músicas mais executadas nas rádios de todo o Brasil.
E o carinho do público com esses artistas as vezes extrapolam os limites éticos. A consultora de vendas Jenifer Faria é uma delas, vai em tudo quanto é show dos seus ídolos Zezé di Camargo & Luciano, “já fui para Florianópolis, São Paulo, Londrina, Ponta Grossa Maringá, entre outros” conta em entrevista a rádio 98 FM. Se não bastasse isso, Jenifer ainda fez uma tatuagem gigante em suas costas com o rosto dos músicos.
Um cowboy pode gostar de outros estilos musicais, isto não irá tirar o rótulo dele, porém em uma festa de rodeio, você irá ouvir muita música sertaneja nacional e também música country de artistas internacionais, como Garth Brooks, Alan Jackson e Shania Twain.


Conhecendo os artistas

Garth Brooks: Quem é que nunca cantarolou “Standing Outside On Fire?. Essa música é um dos maiores sucessos do gênero country no Brasil e presença constante em todas as festas de rodeios. O autor dela é Garth Brooks, o cantor country mais famoso do mundo. Brooks é um fenômeno, em 10 anos de carreira, vendeu mais de 100 milhões de discos só nos Estados Unidos, sendo responsável pela popularização da música country por lá. Aqui no Brasil ele já se apresentou na festa do Peão de Barretos no ano de 1998.

Shania Twain: Cantora canadense que une o pop ao country, suas músicas animam qualquer festa country, diversas delas ficaram no topo das paradas norte-americanas. Shania hoje é uma referência do country music. Sua beleza também contagia a todos. Infelizmente a cantora nunca se apresentou em terras brasileiras.

Shania Twain em apresentação histórica no Super Bowl

Alan Jackson: Ícone da música country americana, ganhou fama também aqui no Brasil. Levou mais de 80 mil pessoas em um espetáculo de primeira na Festa do Peão de Barretos, e já gravou uma música com o cantor Leonardo. Seus discos já ultrapassaram a marca de 40 milhões de cópias vendidas nos EUA.

Zezé di Camargo & Luciano: Começaram o estrelato em 1991 com o hit “É o Amor” e desde então não pararam mais de fazer sucesso. Hoje possuem uma legião de fãs e com 13 anos de carreira já ultrapassaram a marca de 13 milhões de discos vendidos e possuem uma média de 120 shows por ano. Zezé se destaca pela sua voz inconfundível e Luciano pelo seu jeito caipira de ser. No ano de 2005 ganharam a tela dos cinemas com o filme “2 filhos de Francisco” sucesso de público e crítica.

Chitãozinho & Xororó: 30 anos de carreira e muito fôlego ainda pela frente. Essa dupla estourou no ano de 1982 com a clássica “Fio de Cabelo”, o sucesso foi tanto que invadiu as rádios por todo o país, abrindo as portas para a nova música sertaneja, onde eram utilizados outros instrumentos musicais além da viola caipira. Depois disso vieram sucessos atrás de sucessos.

Rio Negro & Solimões: Dupla que atingiu o sucesso no ano de 2000 com a música “Bate o Pé”. Possuem um estilo próprio com músicas dançantes. A voz forte do Rio Negro e as palhaçadas de Solimões não deixam ninguém parado em uma festa de rodeio.

Bruno & Marrone: Com 13 anos de carreira, eles vieram de Goiás e ganharam fama no ano de 2001 com a música “Dormi na Praça”. A dupla é considerada a responsável pelo novo crescimento da música sertaneja no Brasil, que vivia um período de baixa. A receita do sucesso é as músicas românticas cantadas pela voz forte e impressionante do Bruno e a simpatia do carismático Marrone.

Bruno & Marrone, uma das maiores duplas da atualidade

Edson & Hudson: Nascidos no interior paulista, começaram de baixo, cantando em bares, praças públicas e rodeios. Aos poucos foram conquistando o sucesso e hoje é uma das principais duplas sertanejas do Brasil. A dupla alia o jeito debochado do Edson com toda a competência de Hudson com sua guitarra.

Daniel: Em carreira solo, depois de perder o parceiro João Paulo, passou a cantar músicas românticas, ideais para se dançar coladinho. Mas seu repertório conta também com músicas dançantes que agitam o seu show e garantem a diversão do público.


Invasão de outros estilos

As festas de rodeios pelo Brasil e principalmente a festa de Barretos abriu espaço para todos os estilos musicais, em um evento desse, nenhuma tribo fica de fora. Assim bandas como Detonautas, Capital Inicial, Charlie Brown Jr, O Rappa, Jota Quest, Inimigos da HP, Chiclete com Banana, Asa de Águia e Ivete Sangalo fizeram apresentações no parque do peão, teve até dupla sertaneja Rio Negro & Solimões cantando em cima de um trio elétrico.

Arena lotada no show de Rio Negro & Solimões
Na primeira sexta-feira da festa, após as competições, diversos DJs comandaram o som de suas cabines, entre eles nomes super conceituados como Patife e Marky Mark. Essa noite foi dedicada exclusivamente a música eletrônica e o estádio de Barretos foi palco de uma grande rave.
Acaba-se criando uma polêmica em torno disso, se é válido misturar bandas de rock e pagode com o estilo country e sertanejo. Milton Capps, da cidade de Jaú era um dos insatisfeitos com essa atitude dos organizadores. “Assisti a todos os shows da primeira semana, desses, o melhor e com mais gente foi o do Edson e Hudson”. Sua maior insatisfação, porém foi o fato de sexta-feira só ter tocado música eletrônica. “Duvido que em uma festa rave ou micareta fossem colocar música country e sertaneja, com certeza o pau ia quebrar”.
Já o piracicabano Rodrigo Trevisan, de 30 anos, tem uma opinião contrária, para ele tudo virou festa: “Estive no segundo fim de semana, e esse sim foi mistura, na sexta Bruno e Marrone e depois Babado Novo. No sábado então foi uma mistura que deixou todo mundo louco” Rodrigo também elogia os organizadores do evento. “É uma festa para todos os gostos e estava muito bom”.

Claudia Leite agitando o Barretesão com o Babado Novo
Para o sonoplasta Lessauro, o rodeio deixou de ser uma festa que só vai quem gosta das competições. “Virou uma balada”, conta. Ele também acha normal a música eletrônica entrar com tudo. “As bandas de baile estão perdendo espaço para os DJs atualmente”.

Acéssórios Country

As roupas que eles usam são muito especiais, um cowboy deve sempre trajar uma camisa, de preferência colorida e flanelada, que deve ser usadas para dentro da calça, para não esconder o cinto e a fivela. Muitos também adotam um estilo mais esportivo, usando camiseta pólo. A calça tem que ser jeans e bem apertada, na maioria das vezes é usadas calças escuras. Outros utensílios indispensáveis são as botas.
Não existe cowboy de tênis, muito menos de sapato. Essas botas podem ser variáveis, cano alto ou baixo, bico redondo ou bico fino, isso não importa muito, o que precisa é ser uma bota.
O chapéu também é um utensílio dos mais importantes e precisa de todo um cuidado especial. As abas devem ser dobradas, e pode-se enfeitar ele com pingentes, broches e até rabinhos feitos com crina de cavalo.
Em matéria veiculada no Globo Repórter, o peão campeão do mundo Ednei Caminhas considera o chapéu a sua segunda casa, “fico embaixo dele o dia inteiro”. Um bom cowboy deve sempre pegar seu chapéu pela copa e nunca pela aba. Existe também um referencial que mostra a qualidade do chapéu, quanto maior o “x”, mais valioso é o chapéu.
No rodeio de Barretos no ano de 2005, chapéus de 20x, feitos de pelo de lebre eram encontrados por preços que variavam entre 800 a 1500 reais. Já um chapéu Panamá, um modelo mais simples e viável custa em torno de 50 reais. Porém, o chapéu mais desejado e que quase não se encontra no Brasil, o de 100x chega a custar 8500 reais. O número de “x” vem marcado na parte interna do chapéu. Essa parte de dentro do chapéu também serve para os peões colarem uma figura da Nossa Senhora de Aparecida, para que nada de mal aconteça a eles.
Antigamente para se provar os bons modos, era necessário tirar o chapéu ao entrar em um recinto. Nos tempos atuais, o chapéu para o cowboy é como que se fizesse parte do corpo e só deve ser tirado quando a imagem de Nossa Senhora entra nas arenas dos rodeios, nessa hora tanto o peão quanto o público tiram o acessório da cabeça em respeito à santa.
A maioria das pessoas que mora no campo usa chapéu de couro ou de palha, “chapéu de feltro, só na novela mesmo”, conta o estudante de agronomia Michel Roulet. Para ele o feltro é muito ruim para o trabalho, e a moda country nada mais é do que uma derivação das roupas de trabalho dos agrônomos e peões.
Por fim tem o cinto e a fivela, o cinto normalmente é feito de couro e as fivelas variam muito, existem cintos com fivelas fixas, mas também existem fivelas personalizadas, assim você pode adaptar sua fivela preferida em qualquer cinto. Existem fivelas que chamam muito a atenção por serem banhadas a ouro, mas o mais normal é ver fivelas com desenhos de touro e cavalo, inclusive o touro Bandido. Porém a mais procurada no rodeio de Barretos era a com a imagem de Nossa Senhora de Aparecida e custava em torno de 100 reais. Muitos rodeios dão de presente aos ganhadores uma fivela personalizada, assim o peão pode usar o seu troféu durante o dia-a-dia. Esse é o uniforme oficial de um cowboy.
Mas se você não estiver disposto a vestir nenhuma dessas roupas e mesmo assim quer ir a uma festa country ou de peão, não tem problema, ninguém se importa com o modo que você irá se vestir, o que vale mesmo é a diversão. Na festa de Barretos esse ano, a maioria das pessoas portava camisetas e calça jeans, um traje bem básico e confortável para agüentar as diversas horas de festa. Festa que parece não ter fim, além das provas, faz parte de um rodeio os shows musicais, o público precisa de animação e nada como pisar na areia fofa e curtir seu artista preferido
Chapéu: o acessório mais importante de todo cowboy

Cowboy da Cidade

Muita gente ainda confunde rodeio com festa junina, acham que é só deixar uns pêlos na barba crescer, vestir uma camisa xadrez, um chapéu de palha e cair na gandaia. Mas não é bem assim, há muito tempo a moda country deixou de ser coisa de caipira, atualmente é um estilo de vida em qualquer lugar do mundo.
Um verdadeiro cowboy precisa se vestir com elegância, conhecer a cultura country e sertaneja e ter muita animação. Você pode ser um cowboy tanto no campo quanto na cidade, não existe mais essa história da pessoa que tem sotaque paulista e por isso não ser considerada do mundo country. Esse universo vem crescendo e muito em cidades grandes como São Paulo e Rio de Janeiro, entre outras. Acessórios da moda country são encontrados por todo o país, nas vitrines dos principais shoppings e lojas e hoje em dia, ninguém precisa falar com o “R”, ou o “T” puxado para fazer sucesso com as breteiras (mulheres que acompanham rodeios).
Um dos maiores espaços country da cidade de São Paulo é o Villa Country, com uma área de 12 mil metros quadrados, a casa, inaugurada em 2002, promove diversos shows de duplas sertanejas ou de grupos country, cantores famosos constantemente fazem shows na casa, que também abre espaço para cantores em início de carreira. É um lugar com diversos ambientes, que faz você se sentir no velho oeste americano, além disso, possui um restaurante com comidas típicas, para o pessoal forrar o estômago antes da festa.
Existem também outros pontos de encontro dos cowboys e das cowgirls na cidade de São Paulo, casas como Estância Alto da Serra, Rancho Rezende e Rancho do Serjão também fazem sucesso com esse tipo de público. Nesses lugares é comum ver pessoas com as mesmas roupas e fazendo os mesmos passos. Parece que eles fazem parte de uma mesma escola e que estão de uniforme, mas na realidade, eles fazem parte da comitiva e nessas festas eles aproveitam para dançar a noite inteira e treinar seus movimentos.
Porém o berço da cultura country ainda é o interior, onde os rodeios crescem mais a cada dia. Estas cidades vem se industrializando, se urbanizando e oferecem um bom sistema de ensino, ou seja, as cidades do interior não devem nada para as grandes cidades, apesar disso o sonho de muitos ainda seja morar em uma grande metrópole como São Paulo e Rio de Janeiro. Existem também aqueles que acabam seguindo o caminho inverso, saem das grandes cidades e vão morar no interior, onde sempre encontram um ambiente agradável e hospitaleiro para construir sua vida.
No interior o ritmo de vida não é tão intenso que nem em São Paulo, as pessoas são mais calmas e a onda de violência é bem menor. “O que se vê por aqui é furto de coisas pequenas, como CD player e muito ladrão de galinha” conta Michel Roulet, nascido em São Paulo, mas atualmente morando em Piracicaba.
O rodeio é um exemplo do forte do crescimento dessas cidades, com a festa, muitas aumentam e bem suas verbas, e até grandes cidades como Ribeirão Preto e São José do Rio Preto contam com sua anual festa de rodeio. Resta saber se um dia o rodeio deixará de ser uma cultura do interior e ganhará as capitais.





Villa Country, local onde se reunem os "cowboys" da cidade

Animais: os reis da festa

Polêmica no ar

Para se fazer um rodeio de qualidade, é necessário que os animais sejam bem tratados, é preciso que ele chegue bonito e robusto, já que eles também são os astros da festa. Em sua fazenda, o animal deve receber todos os cuidados para chegar preparado para o dia do rodeio.
Seu condicionamento físico é o mais importante. O animal tem um tratamento todo especial, deve correr pelo pasto e nadar em piscinas. Ele recebe também cuidados para a saúde, é necessário uma alimentação balanceada e também medicamentos visando evitar a proliferação de vermes e carrapatos.
O importante é que o animal tenha essa capacidade de participar de provas de rodeio, o touro e o cavalo precisam saber pular, caso contrário já são descartados, antes mesmo de iniciarem os treinamentos. Um animal começa sua carreira em rodeios menores, onde os peões são mais fracos, assim eles vão se adaptando, e com o passar dos anos e com os resultados, o bicho vai evoluindo e passa a competir em grandes rodeios com os peões mais renomados. Não existe satisfação maior para um tropeiro de ver seu animal derrubar um peão super consagrado.
O rodeio é um assunto que causa muita polêmica, e a preocupação geral é em relação ao bem estar dos animais. Há quem diga que é uma crueldade com os bichos as provas, mas existem também os que defendem, dizendo que se ocorressem maus-tratos, a competição não existiria a tanto tempo. Uma das maiores polêmicas nesse meio é o uso do sedém, uma tira de lã de carneiro amarrada no animal, momentos antes da sua apresentação.
Flávio Junqueira defende essa prática, dizendo que o sedém tem a mesma função de uma rédea, regula e define como será o pulo do animal. Ele conta também que é impossível amarrar qualquer coisa na virilha de qualquer touro ou cavalo. “A pessoa que tentar isso certamente levará um coice”, diz. Flávio complementa dizendo que o pulo nada mais é do que um sinal de explosão física do animal.
O tropeiro Flávio Junqueira

Para o DJ Gabriel Rocha, membro da sociedade protetora dos animais e contra a prática do rodeio, não é apenas o sedém que causa dor. Para ele, os animais são submetidos todo o tempo a situações estressantes, como o confinamento, o transporte, as luzes e o barulho, alem disso, há outros estímulos, como seu treinamento feito a base de violência. “Um bicho nunca vai ser tão violento quanto nos rodeios se não for estimulado para a agressão. É como um cão que é treinado para atacar”.
Gabriel ainda diz que o comportamento animal nesse tipo de apresentação pode ser entendido como um reflexo de tentativa de fuga e que é visível o estado do bicho. “Eles ficam com as pupilas dilatadas e muitas vezes até evacuam e urinam de tanto medo”. Para Gabriel, o rodeio está longe de ser considerado esporte ou cultura, pois nem é tradição no Brasil, ele ainda acha uma hipocrisia o fato de se pedir ajuda a santos cristãos em um ritual de tortura.
Vale lembrar que no ano de 2001 foi instituída uma lei que considera o peão de boiadeiro um atleta profissional. Porém já existe uma legislação que é contra o uso dos animais nas apresentações de rodeio. O deputado Ricardo Trípoli, autor do código, diz que não é contra a festa do rodeio com shows musicais e apresentações culturais, a lei apenas impede todo tipo de mecanismo que provoque o sofrimento animal.
“Onde não houver maus-tratos aos animais, os rodeios poderão acontecer com exposição dos animais e os shows sertanejos” diz o deputado que teve como estímulo na criação da lei a falta de uma legislação específica e a melhoria da qualidade da fauna. Em uma reportagem da Folha de São Paulo foi ouvido o diretor do rodeio da Festa de Peão de Barretos. Para Marcos Abud, o sedém é um acessório que gera apenas cócegas, fazendo com que o animal de saltos mais velozes. “Não é verdade que o sedém machuca ou aperta os testículos”.
Um argumento muito utilizado por quem defende o esporte, é de que os animais que fazem parte da festa recebem tratamento diferenciado durante as competições, com auxílio de médicos, veterinários e nutricionistas. A festa também ajuda a promover a cultura do homem do campo, que está cada vez mais esquecida com o crescimento da metrópole, e os fatos do cotidiano de um trabalhador rural como o laço em bezerro são transformados em competições.
Essa prova do laço em bezerro é outra que gera muita polêmica, já que o peão laça o bezerro pelo chifre e outro peão o laça pelos pés, deixando-o imobilizado. Nessa prova deve se utilizar bezerros com mais de oito meses de vida e com um peso acima de 100 kg. Muitas pessoas condenam esse tipo de prova e afirmam que em alguns rodeios são utilizados bezerros com apenas 40 dias de vida e que mesmo nos bezerros mais formados pode ocorrer dele sofrer algum traumatismo com as pancadas e criar uma sensação de pânico nele. Além da prova do laço do bezerro e do uso do sedém, esse pessoal contra o rodeio condena outros materiais, como as esporas, que podem prejudicar o animal.

A polêmica prova do Laço em Bezerro

As esporas acopladas a bota do peão são usadas para o animal pular mais, já que ele recebe golpes de espora na barriga no pescoço e na cabeça, e quanto mais golpes o animal recebe, mais pontos são contabilizados para os peão, muitos dizem que a prova acaba sendo um estímulo para que se machuque mais ainda os animais. Porém, diz a regra de qualquer rodeio profissional que as esporas devem ser arredondadas, para não causar ferimentos ao bicho.

Modelo de espora

O rodeio, principalmente no ano de 2005 passou a ter muito mais evidência. Além de ser o ano de comemoração dos 50 anos da festa de Barretos, a novela “América” tem um núcleo com personagens do campo, essa novela acabou se tornando um sucesso de audiência. Coincidentemente ou não, foi a partir daí que o assunto ganhou destaque na mídia em geral, virou moda debater sobre a prática do esporte e cada vez mais pessoas famosas vem aderindo esse movimento contra rodeios.
A cantora Rita Lee é uma das que mais critica, ela vai com freqüência em veículos de comunicação falar mal da prática do esporte e se não bastasse isso ainda vem comprando briga com o pessoal do meio. Um dos mais revoltados foi o cantor Zezé di Camargo, que em matéria publicada na Folha de São Paulo convidou a cantora a freqüentar um rodeio junto com a presença de um veterinário. Rita rebateu dizendo que se Zezé vai aos rodeios há tanto tempo e conhece os abusos, ela sente muito pela ignorância espiritual do músico.
“Se Zezé freqüenta os rodeios, pior para ele, eu odeio rodeio” disse Rita. Vale lembrar que a cantora afirma ter um material e imagens comprovando os maus-tratos, porém ela nunca pisou na areia de um rodeio, já Zezé é freqüentador assíduo das provas, além de levantar multidões com seus shows.

A cantora Rita Lee abomina rodeios

O cantor Chico César é outro que vem levantando uma bandeira negativa contra o esporte, escreveu uma música chamada “Eu Odeio Rodeio”, onde ele faz um pesado desabafo contra essa cultura texana, como ele mesmo se refere em sua composição. Por fim tem a apresentadora Luisa Mell, que em seu programa destaca diversas vezes o sofrimento animal em provas de rodeio. Para o tropeiro Flávio Junqueira trata-se de demagogia.“Eles fazem isso para aparecerem na televisão”.

Luisa Mell, a defensora dos animais

O presidente da PRT André Metzer condena alguns rodeios. “Nem todo rodeio é igual a Jaguariúna ou Americana. Muitas cidades compram uma boiada ruim, e fazem do rodeio apenas um pano de fundo para os grandes shows”. Mas ele não acredita que esses animais são mal-tratados. “Um animal de rodeio é muito valorizado, envolve muito dinheiro, e eles acabam recebendo um tratamento especial”, diz o presidente que complementa dizendo que normalmente o rodeio é uma tabua de salvação na vida do touro, já que a grande maioria tem sempre o mesmo destino, o frigorífico.
O responsável pelo desenvolvimento do rodeio em touros no país, o juiz Tião Procópio acha que essas pessoas que vem a público falar dos maus-tratos aos animais não têm conhecimento sobre o universo dos rodeios e do que ele trás de bom para as cidades sedes. “Se soubessem como tudo funciona, teriam outra opinião”, diz. Tião afirma que cada dono de touro tem o maior amor e carinho por seus animais, não admitem que eles se machuquem e tentam dar a melhor assistência veterinária e nutricionista possível. “O touro é o bichinho de estimação do tropeiro”.
Um bom exemplo disso foi quando Paulo Emílio, dono do touro Bandido, chiou muito ao ver que o peão Ednei Caminhas estava usando uma espora pontiaguda para desafiar o boi. Mas existe todo um regulamento que proíbe o uso de esporas com pontas finas, já que a intenção de um rodeio profissional não é machucar o animal, isso está fora de cogitação, o intuito é de promover uma grande festa.

Barretesão - 50 anos


Meio século de festa


Não é à toa que o rodeio de Barretos é considerado o maior do Brasil. Por trás das estrelas da festa, existem os organizadores, um competente grupo que a cada ano investe mais no evento, justificando o atual status que tem a cidade de Barretos. Esse grupo se chama “Os Independentes”, e foi criado no dia 15 de julho de 1955.

Flâmula dos Independentes - 1955
Era um grupo de rapazes solteiros e ligados à atividade pecuária local, que fundou o clube com o intuito de promover festas inspiradas nos trabalhos de fazenda. O grande objetivo era arrecadar fundos para entidades assistenciais da região. O nome “Independentes” vem justamente pelo fato dos membros do clube serem solteiros e com boa situação financeira. Antigamente quem casasse era retirado do clube, mas os tempos passaram e hoje muitos membros do clube já subiram ao altar.
Antônio Renan Prata, primeiro presidente do clube

A primeira Festa do Peão Boiadeiro de Barretos aconteceu em agosto de 1956, um ano depois da fundação do clube. O evento ainda não era realizado no Parque do Peão, na primeira ocasião aconteceu sob uma lona de circo e durou apenas dois dias Este foi o modelo adotado e padronizado para a festa rural de maior sucesso do país. A partir disso, todas as festas passaram a ser realizadas no mês de agosto, junto com o aniversário da cidade de Barretos.
Mas a Festa de Peão Boiadeiro não foi o primeiro rodeio realizado na cidade. Em 1947 foi produzido um evento do gênero. O primeiro no Brasil, organizado pela Prefeitura Municipal para entreter a população, nessa época um par de botas, ou um chapéu eram os prêmios dos vencedores do rodeio, mas o que valia era o esporte, a competição e a paixão desses peões pela montaria e tudo que acontecia nos eventos de Barretos servia de modelo para outros rodeios realizados em territórios brasileiros.
Na década de 60 já havia muitos rodeios no Brasil. Eles aconteciam em diversas cidades, mas a grande maioria era dentro do estado de São Paulo. Os peões se tornaram competidores e corriam de uma festa para outra atrás de prêmios. Porém era em Barretos que todos tentavam a chamada sorte grande. Nos anos 60, a Festa de Peão Boiadeiro de Barretos possuía fama em todo Brasil e atraía gente de todo o país. Contava ainda com a participação de peões de outros países da América do Sul, como Argentina Uruguai e Paraguai.
Em 1964, através de um Decreto Estadual, a festa foi declarada de “utilidade pública”, já que a movimentação financeira passou a atuar de forma vital para o município. Em 1967, o clube adquiriu um casarão no centro da cidade para servir como sede administrativa. Na 17ª Festa de Peão, no ano de 1972, acontece a primeira visita de um presidente da república no evento. Emilío Garrastazu Médice, o presidente do país daquela época, foi prestigiar a cidade e atividade ascendente. Ainda nos anos 70, surgiu o concurso para a escolha de rainha.
Na década de 80, o traje dos peões sofreram mudanças. O cinturão de couro, a bota de cano longo e o lenço usado no pescoço deram lugar ao jeans justo no corpo e o cinto de couro com fivela larga, uma influência norte-americana. Em 1980, o clube compra um terreno de 40 alqueires. Eles já planejavam a construção do Parque do Peão, pois, devido ao grande sucesso de público, o espaço estava ficando pequeno. Ainda nos anos oitenta, mais precisamente em 1985, ele foi instalado. Já em 1989 foi inaugurado o Estádio de Rodeios com capacidade para 35 mil pessoas. Projetado por Oscar Niemeyer, o estádio com formato oval foi construído para ser o palco das montarias.

Estádio de Barretos, projeto de Oscar Niemeyer

Em 1994 acontece o primeiro evento internacional. Ele contou com a presença de competidores dos Estados Unidos Canadá e Austrália. Barretos sediou uma das etapas do Professional Bull Riders, onde o vencedor disputa a final em Las Vegas com os melhores profissionais de rodeio do mundo. Nos anos 90 as festas estavam cada vez mais animadas com a realização de grandes shows. Os que mais atraíram público foi o show “Amigos”, com Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo; Leonardo e Chitãozinho & Xororó, consideradas as duplas sertanejas top do momento e também as apresentações de artistas internacionais, como Garth Brooks, Alan Jackson e Reba McEntire, fenômenos da música country norte-americana.

Garth Brooks agitando o público em Barretos
Em 1996, o clube compra mais dez alqueires para serem incorporados à área do Parque do Peão. No século XXI, a transformação de maior relevância acontece em 2002, quando o presidente da República Fernando Henrique Cardoso sanciona uma lei em que o peão de rodeio é considerado um atleta profissional. Em 2005 uma surpresa. Uma estátua de 27 metros de altura homenageia a maior personalidade da festa, o peão de boiadeiro. Para marcar os cinqüenta anos de sucesso, os organizadores do evento apostaram nessa linda obra de arte.


O Parque do Peão

Eu sendo carregado logo na entrada do Parque

Para o rodeio de 2005, ano em que se comemorava os 50 anos da festa, foi investida a quantia exorbitante de 10 milhões de reais. O evento conseguiu trazer um retorno de 13 milhões de reais durante os 18 dias de festa, levando 950 mil pessoas nas dependências do parque do peão.
O parque do peão é uma área de 1 milhão e 200 mil m², construída no ano de 1985. Situado à beira da estrada Brigadeiro Faria Lima, o parque fica a cinco quilômetros da zona urbana de Barretos e conta com 12 ranchos particulares. O parque chama a atenção pelo seu tamanho e pela sua estrutura, lembrando muito um parque de diversão norte-americano, mas tem estilo rural, nele se encontra brinquedos como montanha-russa e roda-gigante.
Opções de comida também não faltam, se encontrando desde pratos culinários típicos do interior, como arroz de carreteiro e vaca atolada, comidas exóticas, caso de tira-gosto de testículo de boi, ou até da cozinha internacional. São 120 lanchonetes e restaurantes espalhados pelo parque, que conta também com espaço para comitivas se reuniram, além de um setor especial para a imprensa.
Quem quiser fazer compras não precisa se deslocar para a cidade, já que o parque possui um supermercado Compre Bem de 450 m².

Supermercado em pleno Parque do Peão

Para as pessoas que não conseguiram pousadas ou hotéis, o parque oferece um espaço de camping, que conta com um belo lago artificial e abriga um total de 10 mil pessoas.
As pessoas que vão de carro não precisam se preocupar, um estacionamento, com capacidade para 80 mil carros, garante a tranqüilidade do motorista. Existe também um espaço especial dedicado aos ônibus de excursão, o lugar tem capacidade para um pouco mais de mil ônibus. Telefones públicos também são disponibilizados em todas as ruas do parque, que suporta até seis mil ligações de celular simultâneas.
O parque conta com 330 banheiros públicos, sendo que dez eram especiais para deficientes físicos. Para aquele pessoal que exagerou nas bebidas, ou comeu demais, esses poderiam se encaminhar para um posto médico da Unimep, com infra-estrutura até para realizar pequenas cirurgias. Um posto dentário também estava disponível para quem tivesse dor de dente.
A produção dos 50 anos de festa também parecia coisa do primeiro mundo. A forte iluminação e o sistema de som chamam a atenção, não devendo nada para o carnaval do Rio de Janeiro na Sapucaí. Outra coisa que impressionou foi o número de helicópteros, oito no total, e os belos balões dirigíveis, cinco no total.
Fora isso, o parque conta com um estádio com capacidade para 35 mil pessoas sentadas. É muito importante o conforto do telespectador, já que as montarias duram em média 5 horas. O estádio de Barretos foi projetado por Oscar Niemeyer em um formato oval e é o maior estádio de rodeios do Brasil.
Cada festa de peão em Barretos tem uma história diferente, e ela pode ser conferida no memorial do peão, uma área de 1600 m² com um acervo histórico dos rodeios.
Para as crianças existe o Rancho do Peãozinho, que conta com um espaço exclusivo para quem tem até 12 anos. Lá acontecem atividades culturais, educacionais e ecológicas. Há também uma pequena área de rodeios com bezerros e carneiros, onde a criança entra em contato com as montarias. Esse espaço reservado para as crianças, é fundamental para elas conhecerem o universo dos rodeios e a cultura desse meio. Há ainda no local uma mini-fazenda com pequenos animais e riacho.
O Rancho do peãozinho conta com uma área de 25 mil m² e a grande maioria das crianças que o visitam são de escolas da região. Vale lembrar que quem for a Barretos fora da época da festa, pode visitar o parque a vontade, já que este fica aberto também nos outros dias do ano.

Atividades no Rancho do Peãozinho

Investidores

Para o evento de 2005, foram contratados 700 animais para serem montados durante as competições. O rodeio de Barretos ofereceu uma bela premiação aos seus vencedores. No total foram distribuídos 500 mil reais em prêmios, sendo que 160 mil foi dado ao grande campeão do rodeio internacional em touros.
Se somarmos os valores arrecadados de todas as festas de rodeio que ocorrem pelo país, chegaremos a uma impressionante marca de 2 bilhões de dólares. Ou seja, essa indústria do rodeio merece muito respeito e a grande tendência é de um crescimento ainda maior.
Diversas companhias patrocinam a festa de Barretos, visando um retorno futuro. Empresas como Brahma, Bayern, Compre Bem, Souza Cruz, Chevrolet, entre outras, promovem diversos eventos e montam ranchos para recepcionar os clientes. Com a exibição da novela América em 2005, as cotas foram fechadas rapidamente, três meses antes do início do evento.
Fora isso, a festa que passou a ter três finais de semana, totalizando 18 dias, 87 grupos musicais animaram o público presente no parque do peão, totalizando 120 shows.
Só a Brahma, considerada a cerveja oficial do rodeio, disponibilizou 2 milhões de latinhas de cerveja, há 29 anos ela patrocina o evento, sendo que cria latinhas temáticas, com o desenho da festa estampado. No rodeio de Barretos algumas latas chegavam a custar 3 reais, e chegou um certo momento em que estava difícil encontrar alguma, o consumo foi muito intenso.
Primeira latinha personalizada do Rodeio de Barretos
Existem também aquelas empresas que deixam a marca Barretos estamparem seus produtos. “Foi uma idéia que surgiu do próprio Clube Os Independentes e licenciamos linha de vestuário, copos decorados, molho de tomate, conteúdo para telefone celular, garrafas térmicas, cantis, caixas térmicas, fivelas, chaveiros, bottons de metal e chapéus”, diz Celso Rodrigues, responsável pelo licenciamento dessas marcas. Ele também nos contou que o retorno do investimento superou as expectativas.
Quem também deu bastante suporte para a festa de Barretos foi a Rede Globo, que além da novela América, lançada em 2005, empresta o seu nome para as etapas do Circuito Nacional de Rodeio (CNAR) e transmite os melhores momentos das competições no programa “Esporte Espetacular”. Quem tem dinheiro para pagar pode adquirir o rodeio completo das principais cidades pelo sistema pay-per-view.

Barretesão - 50 anos


Campeão do Rodeio Internacional de Barretos - 50 anos


Dezoito dias de festa, muito boi pulou, alguns peões voaram longe, outros se consagraram, muita diversão e balada para as pessoas que vieram do mundo inteiro prestigiar o evento. Sem contar a badalação nos camarotes e personalidades desfilando pelo parque do peão. Foi tudo muito bom, mas estava na hora do show terminar.
Emoção não faltou para quem compareceu na arena no domingo dia 28 e assistiu a grande final do 13º rodeio internacional em touros, reunindo os dez melhores competidores durante a última semana.
Os gringos ficaram todos pelo caminho e se apresentaram na ordem, Adriano Guedes, Hélton Barbosa, Fabiano Vieira, José Ridauto, Rogério Ferreira, Aguinaldo Ferreira Porto, Aguinaldo Cardoso, Guilherme Marchi, Silvanei Carvalho e Francisco Félix. Até tocar a última sirene tudo estava indefinido e o público que prestigiou as competições da maior festa de peão de boiadeiro do Brasil, em seu cinqüentenário, não se arrependeu.
Adriano Guedes, de Pereira Barreto (SP), é o primeiro peão a entrar na arena, vem credenciado por ser o atual campeão da PRT, temporada 2004/2005. Montando o touro Linha Direta da Cia Gira Sol ele consegue ficar os oito segundos em cima do boi. Adriano totalizou 306 pontos no total. Sua tarefa porém era ingrata, só seria campeão de Barretos, caso os outros nove peões fossem derrubados, algo praticamente impossível.
Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando o paranaense da cidade de Pérola, Fabiano Vieira, terceiro peão a se apresentar e vencedor da competição no ano passado, entrou na arena montando o touro Destroyer, da tropa do Paulo Emílio. Um touro que até então estava invicto, ninguém nunca havia ficado oito segundos no lombo dele e para que Fabiano ainda sonha-se com o título teria que quebrar essa invencibilidade do touro. Para muitos Destroyer era apontado como um sucessor do touro Bandido, mas Paulo Emílio sempre desmentia isso, dizendo que não existe touro que chegue aos pés do Bandido.
Não podia haver prato mais apetitoso para o público do que ver o garoto que fez história ao vencer a competição no ano passado vindo do qualifying, desafiar um touro invicto do Paulo Emílio.



Fabiano Vieira, a maior nota do Barretão, 94 pontos

Destroyer bem que tentou, rodou de todas as maneiras, com toda força, mas a sirene tocou e a boa técnica de Fabiano falou mais alto, 94 pontos, a maior nota dada em Barretos no ano de 2005. Com a façanha, Fabiano assume provisoriamente a liderança do rodeio com 323 pontos, para desespero de Paulo Emílio, que viu seu touro sendo domado. Foi um acontecimento para entrar para a história dos rodeios, o público delirou e ainda tinha outros sete peões pela frente. Para Almir Cambra, esse foi o momento mais emocionante narrado por ele em toda a sua vida. “Foi lindo demais”, diz. Para Fabiano, restava torcer contra os outros atletas para fazer história e se tornar o primeiro atleta a vencer o Rodeio Internacional de Barretos por dois anos consecutivos.
Outro peão que tinha grandes chances de triunfo em Barretos era Guilherme Marchi, um peão que tem um histórico invejável, já que compete nos Estados Unidos e ocupava a segunda posição no ranking da PBR, uma espécie de ranking mundial. Porém em Barretos ele não teve tanta sorte. O touro Impacto, de Neto Oger, o venceu rapidamente com apenas dois pulos e o peão, nascido em Itupeva, interior de São Paulo, terminou a competição no oitavo lugar com 236 pontos. Sabonete, como é chamado carinhosamente no meio, é mais um dos exemplos de atleta que não recebem o apoio da família para exercer a profissão. “Eu morava em Bertioga e meus pais queriam que eu estudasse” conta ele, que conseguiu conciliar os estudos com as montarias até se formar como técnico em agropecuária.
Em Barretos ficou a impressão de que Guilherme se jogou do touro, motivos para isso ele teria, já que disputava o título da PBR, buscando o prêmio máximo de um milhão de dólares. “Estava fazendo uma boa campanha, mas não suportei a dor na minha mão” disse. Depois de Guilherme só restavam mais dois peões, eles fechavam a competição por terem sido os melhores competidores durante os outros dias, os peões estavam invictos ainda, ou seja, nenhum touro havia derrubado eles em Barretos.
Primeiro entra Silvanei Carvalho, com 296 pontos no geral, que precisava ficar oito segundos em cima do touro Portal, de propriedade de Neto Oger para garantir no mínimo a segunda colocação. Silvanei não resistiu aos pulos do boi e acabou vencido, deixando tudo nas mãos de Francisco Félix, o “Cisco”, natural de São José do Rio Preto.
Um peão vindo do qualifying e não estava entre os favoritos, era só ficar os oito segundos em cima do touro Armagedon, de Joãozinho Ribas, que Cisco seria o campeão da principal prova da 50ª Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos. Caso contrário, o título ficaria com seu amigo Fabiano Vieira. “No ano passado, eu viajava todos os dias com o Fabiano, ele dormia em casa e pegávamos a estrada todo dia a caminho de Barretos. Caí do Timor Leste na última montaria da fase de classificação e não fui para o rodeio internacional. O Fabiano passou e se sagrou campeão”, contou Félix,
No ano de 2005, o papel se inverte, Vieira é o grande astro que tenta o bicampeonato, Cisco está no papel de azarão, porém, com a faca e o queijo na mão.
A carreira de Cisco teve um início conturbado. O peão de São José do Rio Preto sempre foi apaixonado por rodeios e começou a competir em rodeios locais ou em cidades próximas. Sua família sempre foi contra a prática do esporte, nunca deram apoio para Cisco, pois se preocupavam muito com a segurança do filho. Preferiam que o filho seguisse outra carreira, já que Cisco, diferente de outros peões, não nasceu em família pobre.
Mas é justamente nessas horas que a paixão do rodeio fala mais alto e Cisco começou a participar das provas. Sempre viajava escondido, brigado com a família, mas com os resultados aparecendo, o pai começou a aceitar a idéia de ver um filho montando em animais agressivos e ferozes.
O momento mais esperado finalmente chegou. Cisco venceu o qualifying, se credenciando a disputar o rodeio internacional de Barretos. Já era a quarta tentativa de Cisco na fase classificatória, e pela primeira vez entra na disputa. Ele consegue uma boa campanha, supera quatro touros e chega no último dia com 100 % de aproveitamento. O quinto touro a ser batido era Armagedon, lindo, totalmente branco, mas de má índole, como um bom animal para rodeios deve ser. Cisco finalmente monta no touro que está preso no brete, o público fica apreensivo, se parasse em cima do animal, ele conquistaria o tão sonhado título.
A emoção lembrava o de uma final de Copa do Mundo, todos estavam paralisados esperando e finalmente o locutor Almir Cambra anuncia a entrada do peão. Sua mulher, Carla Prado, acompanha apreensiva na arquibancada, enquanto seu pai, com o óculos já embaçado, reza.
A porteira demora uma eternidade para abrir, o touro não dá condições, fica se mexendo dentro do brete, indo para trás, para frente, abaixava a cabeça toda hora. Cisco busca um melhor apoio, faz seus últimos ajustes e as últimas orações. O público espera, os segundos parecem ser uma eternidade.

Cisco x Armagedon

A porteira se abre, Armagedon, sai pulando e girando muito, Cisco usa toda sua habilidade para se manter equilibrado, o touro se invoca, começa a pular cada vez mais forte, mais alto, e com mais raiva, o peão resiste bravamente e a sirene toca, Cisco consegue descer do boi de pé, sai pulando, comemora muito, faz a festa e corre para o abraço de seu pai que no momento da buzina invadiu a arena. Os dois se ajoelham e trocam um longo abraço ao som de Ivete Sangalo, levantando a poeira e emocionando a todos os presentes.

Pai de Cisco corre para abraçar o campeão

Cisco parece não acreditar, “nunca imaginei esse momento, nem passava pela minha cabeça vencer em Barretos, é muita emoção, muita adrenalina, não existem palavras para descrever a felicidade desse momento”. O público aplaude o mais novo campeão da montaria de touros. Francisco Felix entra para a história de Barretos, justamente por vencer a principal prova na sua 50ª edição, ele totalizou 387 pontos nas cinco montarias, levando para casa uma camionete importada no valor de 160 mil reais. Com 22 anos, o campeão de Barretos parte para uma nova aventura, agora em território norte-americano. Ele embarca para os Estados Unidos, para se familiarizar com o ambiente e em 2006 compete pelo circuito PBR, o mais tradicional do mundo.
O pessoal nas arquibancadas vibra muito, era hora de pegar a estrada de volta e se preparar para mais uma segunda-feira de trabalho. Está encerrada a competição que premiou os amantes das montarias com muita emoção e adrenalina até o último segundo.